Excertos I

maio 2, 2009

“E perguntou-lhe: Qual é o teu nome? E lhe respondeu, dizendo: Legião é o meu nome, porque somos muitos.” MARCOS. “Ora, andava ali, pastando no monte, uma grande manada de porcos; rogaram-lhe que lês permitisse entrar naqueles porcos. E Jesus o permitiu. Tendo os demônios saído do homem, entraram nos porcos, e a manada precipitou-se despenhadeiro abaixo, para dentro do lago, e se afogou. […] Então saiu o povo para ver o que se passara, e foram ter com Jesus. De fato acharam o homem de quem saíram os demônios, vestido, em prefeito juízo, assentado aos pés de Jesus; e ficaram dominados pelo terror. E algumas pessoas que tinham presenciado os fatos contaram-lhes também como fora salvo o endemoninhado.” LUCAS. “Se não me fosse proibido narrar os segredos das profundezas, eu te revelaria uma história cuja palavra mais leve arrancaria as raízes de tua alma. E gelaria o sangue de tua juventude, fazendo teus dois olhos abandonarem as órbitas como estrelas perdidas; enquanto teus cabelos, separados em tufos, ficariam com os fios em pé: cerdas na pele de um porco-espinho. Mas esses segredos do sobrenatural não são pra ouvidos feitos de carne e sangue, escuta, escuta, escuta!” HAMLET. “Espíritos maus reunem-se / Diversos demônios horríveis, girando / No leitoso nevoeiro do luar / Elevando, agitando, girando / Como as folhas nos dias de outono… // Que multidão! Para aonde estão sendo carregados? / O que é a triste música que ouço? / É um duende sendo sepultado, / Ou uma bruxa casou-se ali?” ALEKSANDR PUSHKIN. “Com mil demônios, marinheiros, foi Moby Dick que vistes – Moby Dick – Moby Dick!” MELVILLE.

Excertos II

maio 2, 2009

“A praga ataca os brotos da primavera antes mesmo que os botões floresçam; E na manhã orvalhada da existência os contágios fatais são mais constantes. Tem cuidado, então; o medo é a melhor defesa.” HAMELT. “Quando as desgraças chegam, elas não vêm solitárias, mas em batalhões.” HAMLET. “De um lado, juntas, estavam as desgraças, a peste e os pesares, vociferando contra os médicos. A peste dizia que ela havia ferido as pessoas, mas que os médicos as haviam despachado. Os pesares garantiam que não haviam matado ninguém sem a ajuda dos doutores; e as desgraças afirmavam que todos os que haviam enterrado resultavam de um trabalho de ambas as partes.” FRANCISCO DE QUEVEDO – SONHOS E DISCURSOS DE VERDADES DESCOBRIDAS DE ABUSOS, VÍCIOS E ENGANOS DOS OFÍCIOS E ESTADOS DO MUNDO.

um dia viverei de palavras se é que já não vivo delas o fato é que dentre em breve a minha existência dependerá diretamente da minha habilidade de fiá-las por versos curtos em longas prosas em algum ponto minha vida embaralhou-se à tal ponto com a poesia que ao me deparar com a existência das palavras entro num estado de gratuidade desendereçada pois foi nelas que encontrei os meios para seguir com a vida sem poesia sem literatura a prudência seria a morte não sem essa feitura a morte é pura fatalidade pronto e acabou não tem jeito mesmo fim da linha por entrelinhas dependurado em cordames sou serei o romancista da fome romã roman man essa é a última força que me resta excessiva para mim escreverei um romance um romance que não é meu é de outrem mas que farei como se fosse meu com o direito de uma birra escreverei por uma insistência por uma obstinação que não é minha mas que me atinge de modo a sobrar me apenas a expressão sem qualquer espécie de fatalismo tenho ojeriza por favor preciso ser constrangido para escrever à minha necessidade primária responde um mecanismo vil de cerceamentos um ambiente em alguns aspectos saturado pesado denso por onde se estendem caminhos de terra batida compacta bloco intransponível sou constrangido à lançar mão de minha malemolência como quem anda na ponta dos pés para construir os corações em que irei pisar flagelado de nossos tempos esses tempos quentes de um aquecimento cadavérico sofremos de vícios de linguagem uma verdadeira peste bíblica que tem se alastrado gozando de enlarguecida folga e tomando feições por meio dos mais distintos arranjos de sintomas por vezes obriga nos a todo custo adequar aquilo que se escreve ou fala a um empobrecido léxico que pesa nos sobre os ombros desde longa data outras sofre se com uma escassez angustiante de palavras articulações e por vezes orações inteiras restando a resignação de permanecer amordaçado na esperança de que sejamos verdadeiramente entendidos por auxílio de uma providência externa há também uma afetação por convulsões das idéias debatendo se para todos os lados a um só tempo pobre da boca que não consegue o compasso com a vertigem pensante frequentemente termina se forçosamente o que havíamos começado de maneira bem frustrada ao vermo nos completamente perdidos em meio à turbilhonagem há ainda um ataque de obscuridade do pensamento e quando se tem o desejo ou a necessidade de se expressar somos obrigados a fazê lo sem qualquer referência de dentro duma neblina leitosa e assim prossegue se então pela seguinte tática escolhe se a dedo dois ou mais efeitos de linguagem para que pavoneiem a fala como o gosto demasiado no emprego dos superlativos metidos em frases ditas com pausas bem marcadas suaves aveludadas sem arestas e uma ênfase dramática na letra r com essa tática consegue se estender no tempo a emissão de sons para que se tenha a chance de localização a tempo de as últimas duas ou três frases poderem destilar o nexo assim colhido sofremos de todas essas trava línguas cadavérico meu corpo vaga famélico com sede de poeta famélico destrava trava língua travesti solta na vida

[No cais. Entram marujos e arpoadores. Entra Elijah]

    Em meio às brumas que recobrem as passarelas de madeira do porto em Nantucket – levadas até o promontório em uma escuna, assim como todo o resto da cidade –, avança o profeta ao ranger das tábuas esponjosas, embebidas em água salobra e lodo. Somente os marujos de primeira viagem e os arpoadores inexperientes, recém admitidos, despencam de suas acomodações provisórias, nas estalagens da cidade, assim, tão cedo, arrebatados pelas ingênuas promessas com que os horizontes oceânicos lhes iludiram – homens da terra. Ao amanhecer, cruzam as ruas geladas da cidade como grupos de adolescentes, a galopes, na esperança de desempenharem irrisórias tarefas que os aproximem dos verdadeiros ofícios de um marinheiro – sobretudo da honrada atividade de caça às baleias.

    Aqui, retomar a partir de uma descrição do profeta e seguir com seu posicionamento no cais, sobre barris de arenques e caixotes velhos.

    “Escutai, escutai!” – ao que responderam sobressaltados três ou mais rapazotes. “[…] levantou sobre os domínios abissais um altar à Leviatã, ao qual desposou e fez dele a sua casa, chamou-o Jezebel, e, assim, declarou: ‘Com mil demônios, marinheiros, deslizai, deslizai, grande embarcação, tendo abaixo de vós nada mais senão a tempestade negra, morada de bestas e feras, até que, mirando o horizonte, avisteis entre vagas e correntes o monstro, grande como uma ilha, que tem ao seu encalço uma falange de anjos brancos que o seguem pelo mar.’

“Mas eis que o Senhor fará despejar sobre o altar cântaros de vagas do mar e, então, fará o Senhor arder o púlpito navegante com seus marujos baalins, e consumirá o altar o fogo e lamberá as marés em redor. As profundezas fará ferver como uma caldeirada de ungüentos, um guisado de peixes.”

***

    Essa coisa inescrutável é o que eu mais odeio.

***

Locação: Convés de navio, em alto mar.

Personagens: Marinheiros e arpoadores (grupo grande de atores).

Tomada: Câmera parada. O movimento dos atores – da direita para a esquerda – no quadro deve produzir a sensação de que o navio avança.

[A cena inicia-se com marinheiros e arpoadores em pé, sentados, em pequenos grupos, andando de uma ponta a outra. Os atores em cena serão renovados à medida que o navio avança, com os novos atores entrando pelo lado direito do quadro e os anteriores saindo pelo lado oposto. A troca de atores deve ser feita de forma sutil, sem formar “blocos” ou grupamentos. O quadro deve estar o tempo todo ocupado por uma cena que, entretanto, não pode abafar a sensação de movimento que a troca de atores deve produzir. Os atores deverão também marcar um ritmo de cena, sendo os primeiros marinheiros mais alegres, entusiastas, tagarelas e arruaceiros, os últimos mais cansados, com movimentos pesados; começam a aparecer atores deitados, recostados, resmungões, pensativos. Tudo isso deve ser feito de forma gradual, com a intenção de produzir a sensação de uma viagem que aos poucos se torna custosa, dificultada pelos ventos e mares. Com essa progressão, devem também serem alterados a iluminação (que diminui ao ponto de crepúsculo), a intensidade dos ventos (que deve aumentar e tornar-se mais uivante) e as marés (que tornam-se mais revoltosas). Situação de inversão dos elementos: a dança e entusiasmo que tomavam conta dos marinheiros, agora passa para os elementos externos (vento, mar, luz), ao passo que a calmaria de lentidão desses mesmos elementos no começo da cena passam, agora, a habitar os atores no convés.]

Rebeca

Voici notre lettre #2!

E desta vez sem desculpas, a não ser a de desviar nossos assuntos da beleza para esses mesmos riscos pelos quais desliza os olhos agora. É que tenho um segredo tão grande que nem consigo me conter. É como se ele exigisse (a) língua ou, pior, como se escorresse pelas pontas dos dedos compondo palavras soltas onde quer me atreva a empunhar o lápis ou canetas. Desta vez não irei segredar sobre a beleza dos corpos masculinos, quero falar de corpos escritos, corpos literários. Corpos Escrituras.

Acordei hoje com uma vontade de ser lido.

Tenho um segredo tão grande que ando até mais pesado e desajeitado. Não sei nem como contar essa minha perversão, ultimamente venho cometendo compulsivamente o pecado da gula. É que descobri uma nova delícia: escrever. Na verdade foi uma descoberta muito simples aprendida absurdamente de uma forma que outra senão a da leitura. Lendo qualquer coisa: livros, cartas, fotos, conversas, gemidos, verbos, sussurros, gestos e trejeitos. Foi lendo que também deixei marcas escrituradas. Tanto em mim quanto nesses outros corpos que, neste momento, nem sei por onde andam… ou mesmo se ainda andam, é que comecei devorando-os pelos pés.

Acho lindo como as palavras se dispõem pelo papel. Uma vez, li em algum lugar que escrever é uma perversão. Bem, sobre isso, posso afirmar que é uma satisfação escrever. Gozei!!! e por isso, se estiver fértil, cuidado ao manusear estas páginas se não quiser ficar grávida. E, se não quiser mesmo, melhor até deixar esta carta de lado e retoma-la apenas quando achar que estiver pronta.

Ando me sentindo bem clariciano, é que essa delícia é também a minha quarta dimensão: a palavra. Inventei ontem que tenho necessidade delas. Hum, como pude fazer isso comigo? Criei uma dependência… que louco eu, não? Não! O que importa menos aqui são as palavras, mas os cheiros que elas fazem passar. Uma doçura de traição. Neste momento as linhas da folha exalam cheiros em resposta aos olhos deslizantes. Você sente? Eu sim. E o gosto? Todos os cheiros também têm gosto, sabemos disso com os aromas muito acentuados. A mesma pessoa que me disse que escrever é perversão, disse em outro lugar que as palavras têm sabores, que são salgadas (e isso não é pejorativo).

Neste momento fico pensando, que gostos têm a nossa troca de cartas? Quais perfumes fotografamos nessas páginas? Duas sérias-tolas perguntas e uma pretensão minha, já que sem elas não escreveria nada. Pelo menos nada de que gostasse (nada com gosto (com gozo)).

Bem, foi desde então que me entreguei a essa “glutonice”. Uma gastrografia que consiste em provar as palavras e esboçar sabores quando preciso ou não. Arranjar um texto de tal forma a fazer passar um perfume. É isso o que importa: a passagem. Se nada passa, não tem gozo e o texto é frígido.

ESCREVER – PERVERSÃO – GOZO – SABORES. De um tempo pra cá venho achando meus textos muito orais. Escrever com a boca. (psicanálise que insiste em passar)

Escrever me faz tão mulherzinha (essa expressão tão sua, agora nossa). Deixe-me explicar. Compreende que estamos engendrando corpos (?), ou melhor, que me encontro agora, junto com você, em um instante tão maternal, tão grávido de cheiros (Eu não, mas o instante, do contrário isso seria uma estratégia de profundo egoísmo), que escrever é um último recurso para conferir consistência e sabor literário (corpóreo) aos aromas. Escrevo por um golpe de angústia, digo “isto com toda certeza obrigado pelo desespero que me causam o meu corpo e o porvir desse corpo” (KAFKA, 1964). Desesperadamente férteis a endereçarmo-nos corpos para fazermos o que puder com eles.

Pausa para um comentário: Corpo é uma palavra que escrevo de boca cheia. Fim do comentário.

Preciso roubar mais dois fac-símiles de livros, se me permite:

“Escrever mal, dever contudo escrever, se não se quiser abandonar-se ao desespero completo”(KAFKA, s/d). O desespero de um corpo como palco. Aflição! Aflição! Aflição! “Não escrevi nada hoje e, tão logo deixo o livro de lado, sou imediatamente assaltado pela insegurança que, como um espírito mau, se segue a não escrever”(KAFKA apud LIMA, 1993). É como se o mundo escapasse de si mesmo “por entre os dedos”.

Escrevo por uma necessidade e não por um impulso, e este será aqui o meu último golpe violento deixando qualquer clareza para a retórica, já que não escrevo para você ou por mim. É por isso [uma necessidade] que escrevo angustiado, i.e., escrevo in-tensamente – nota: favor enfatizar o prefixo!! Acho que é isso que dizem quando falam que o texto carrega intenções. Como escrever sem fazer passar as tensões de um corpo? J’écris comme un opérateur. O meu modo é escrevendo, a linguagem é para mim uma pele: “esfrego minha linguagem no outro. É como se eu tivesse palavras ao invés de dedos, ou dedos na ponta das palavras. Minha linguagem treme de desejo”(BARTHES, 1986). É porque ando tentando chegar onde quer que seja, correndo de lugares em lugares em uma folha de papel, que tento criar aqui aberturas, como que “estendendo” a pele para que se abram mais poros por onde possamos entrar e sair, ou ainda oferecendo a mão para que possa segurá-la. “Dá-me a tua mão…”.

E agora chega!, o que tinha que passar, foi-se…

D. L.

Ps.: Tout ceci doit être considéré comme dit par un personnage de roman.

Ps2.: Vou precisar de uma outra carta para definir melhor isso que chamei de “gastrografar”.


KAFKA, Franz. Diário íntimo. Rio de Janeiro, 1964.

KAFKA, Franz. 1912 em uma carta – não lembro de que livro isso veio, mas creio que consiga achar na internet.

LIMA, L.C., Limites da voz: Kafka. Rio de Janeiro: Rocco, 1993.

BARTHES, Roland. Fragmentos de um discurso amoroso – Trad. Hortência dos Santos. – Rio de Janeiro: F. Alves, 1986.

#1.

Hesitação… (Reticências). Ante ao desafio de escrever:

Esse texto começa pelo meio em mim.

Talvez fosse melhor dizer que ele brota por todos os lados e com claras influências clariceanas, minha mestra de primeiras letras. Escrever exige a construção de uma língua inteira que, sem a pretensão de inteireza, aceita sua finitude. Sua fragilidade, onde reside sua potência. Provavelmente este texto tem uma data, já digerida e incorporada aos elementos deste corpo. Mas a data marca apenas a erupção de um abscesso, alimentado à surdina pela febre que cozinha meu corpo num tempo que não sabe o quando. É neste ponto em que a febre me toma em delírios que me deparo com o fato central de minha existência, a vida nas palavras e possibilidade de tecê-las em poesia. À maneira de Borges, a minha existência depende diretamente da minha habilidade de fiá-las em versos curtos de longas prosas. Tenho sede de poeta, artista da fome, sopa de letrinhas.

Experimentar as palavras e suas linhas de força, eis um ofício versátil. Escrever requer uma malemolência de corpo.

#2.

A composição de uma língua trabalha matérias de todas as ordens, a língua transita por toda parte. Roça todo canto, fresta, sulco. E junta com saliva, cola primordial, materiais diferentes num organismo vivo – e, portanto, perecível. Forjar uma língua nada mais é do que achar uma nova relação, um novo jogo entre matérias diversas. A escrita é uma questão de expressão e esta, por sua vez, é uma questão de trânsito. Escrever é traçar linhas, trajetos.

#3

Ante ao desafio de esboçar os percursos que vão se construindo ao mesmo tempo em que se trabalha numa língua, deparo-me com o congestionado tráfego do diário íntimo.

A escritura que me brota pelo meio é estranha, alheia. Minha quarta dimensão.

A disposição das avenidas e ruelas no diário, já desde algum tempo em nossa sociedade, funcionam calcadas nas confissões e segredismos, em fofoquinhas imbecis e controle cotidiano. Herdeiro das práticas monásticas de vigilância, das sessões de análise, da vida privada burguesa. Livro de refúgio à imaginação protege o corpo dos percalços da vida. Purga a alma de qualquer elemento ou cozimento brando.

Estrofe

março 8, 2009

Alguma coisa acontece no meu coração

Quando em meus dias os teus olhos descem sobre a solidão

É a poesia que me chega ao peito

Onde florescem canteiros do amor a que estamos sujeitos

1ª pegada

março 5, 2009

#

É mais do que tempo e estação de por à plena potência a indústria têxtil que faz morada nos interstícios de nós; de fiar as fitas que filmam o par de olhos que roubei. Com elas coser um par de meias para fazer companhia aos sapatos meus que há muito são seus. A poesia faz andaço em mim há alguns meses na procura de algum trovador de voz boa para que possa cantá-la. Mal sabe a casa de que inquilino veio ocupar. Sou gago das palavras, claudicante das vírgulas, trôpego no amor. Ai palavras, ai palavras, que estranha potência a vossa. A poesia que aqui se instalou veio em forma de ator, de palhaço sem lona, de um transeunte em noite de chuva, chuva, chuva, chuva. Esse meu visitante acontece a cada vez que me fita, a cada vez que a fita desfita em sorrisos de acontecência. Sorrisos sem razão, puro arrebatamento. Quando acontece meu corpo é poesia se fazendo; é texto estendido fiando-se sobre a cama molhada; é folha branca na qual o palhaço encontra picadeiro certo para esse nosso ofício versátil. A poesia que toma verso em minha pele encontra no timbre da sua voz a postura necessária para que não volte ao coração silenciosa como veio. A força diafragmática ótima.

Oiá quer um filho

janeiro 16, 2009

Sabe, Oiá não podia ter filhos. Foi aí que ela resolveu sair à procura de babalaô. Ao encontrá-lo, babalaô adivinhou-lhe que só poderia ter filhos quando fosse violentada por um homem! Xangô a possuiu assim, um dia…

Bem, assim Oiá teve nove filhos dos quais oito nasceram mudos. Encafifada, Oiá procura mais uma vez o auxílio de babalaô, que lhe recomenda oferendas. E veja só: Tempos depois Oiá deu à luz um filho de voz rouca, cavernosa, esquisita, credo em cruz, vixe-me Deus. Oiá chamou seu filho de Egungum. Vez e outra Egungum retorna da cidade para dançar com sua família, enfeitado com máscaras e panos coloridos. Entre todas as mulheres Egungum reverencia apenas uma. Egungum só se curva diante de Oiá.

Vingou-se a rainha

janeiro 15, 2009

Residia Iyabá em Ijebu metida num quarto a mirar nas conchas polidas o belo reflexo. Eri Yéyé ó! Iyabá Ialodê um dia ausentou-se descuidando de a porta fechar. Oiá, então, penetrou o compartimento e arrebatou-se pelo mundéu de espelhos. A concharia logo procedeu na espantosa revelação: Oiá era a mais linda, a mais bela, Ìyá Mésàn. Eparrei! Oiá achou suas belezas nas conchas de Iyabá e assustou-se, sobrepujava em formosura a dona das cachoeiras. Extasiada, referiu seu achado de Ijesá à Osogbó com o auxílio dos ventos. Iyabá Apará amargurou ressentida inveja. Vingou-se a rainha. Certo dia, à casa de Egungum, furtou-lhe um espelho em que só figurava a morte, horrenda imagem de tudo o que é grotesco, e depositou-o no quarto de Oiá. Esperou. Ao entrar no compartimento, Oiá deu-se conta do objeto estrangeiro, mas Apará apressou-se em trancá-la por fora. Oiá fitou o espelho e tentou escapar de seu terrível espectro. Relampagueou pelo compartimento em desesperança. Atirou raios ao chão, alçou vôo chocando-se com o teto e não logrou em fugir da prisão, nem mesmo da desprezível sombrura. Atônita, Oiá enlouqueceu, partiu deste mundo. Òrìsànlá, que tudo assistia, castigou Apará e fez de Oiá òrisà. Iyabá vestir-se-á então de acordo com Oiá Epahei e as jóias e espadas de metais consagrados à Iyá Mésán.