Cadernos de montagem – folha 1.
abril 5, 2009
[No cais. Entram marujos e arpoadores. Entra Elijah]
Em meio às brumas que recobrem as passarelas de madeira do porto em Nantucket – levadas até o promontório em uma escuna, assim como todo o resto da cidade –, avança o profeta ao ranger das tábuas esponjosas, embebidas em água salobra e lodo. Somente os marujos de primeira viagem e os arpoadores inexperientes, recém admitidos, despencam de suas acomodações provisórias, nas estalagens da cidade, assim, tão cedo, arrebatados pelas ingênuas promessas com que os horizontes oceânicos lhes iludiram – homens da terra. Ao amanhecer, cruzam as ruas geladas da cidade como grupos de adolescentes, a galopes, na esperança de desempenharem irrisórias tarefas que os aproximem dos verdadeiros ofícios de um marinheiro – sobretudo da honrada atividade de caça às baleias.
Aqui, retomar a partir de uma descrição do profeta e seguir com seu posicionamento no cais, sobre barris de arenques e caixotes velhos.
”Escutai, escutai!” – ao que responderam sobressaltados três ou mais rapazotes. “[…] levantou sobre os domínios abissais um altar à Leviatã, ao qual desposou e fez dele a sua casa, chamou-o Jezebel, e, assim, declarou: ‘Com mil demônios, marinheiros, deslizai, deslizai, grande embarcação, tendo abaixo de vós nada mais senão a tempestade negra, morada de bestas e feras, até que, mirando o horizonte, avisteis entre vagas e correntes o monstro, grande como uma ilha, que tem ao seu encalço uma falange de anjos brancos que o seguem pelo mar.’
“Mas eis que o Senhor fará despejar sobre o altar cântaros de vagas do mar e, então, fará o Senhor arder o púlpito navegante com seus marujos baalins, e consumirá o altar o fogo e lamberá as marés em redor. As profundezas fará ferver como uma caldeirada de ungüentos, um guisado de peixes.”
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Essa coisa inescrutável é o que eu mais odeio.
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Locação: Convés de navio, em alto mar.
Personagens: Marinheiros e arpoadores (grupo grande de atores).
Tomada: Câmera parada. O movimento dos atores – da direita para a esquerda – no quadro deve produzir a sensação de que o navio avança.
[A cena inicia-se com marinheiros e arpoadores em pé, sentados, em pequenos grupos, andando de uma ponta a outra. Os atores em cena serão renovados à medida que o navio avança, com os novos atores entrando pelo lado direito do quadro e os anteriores saindo pelo lado oposto. A troca de atores deve ser feita de forma sutil, sem formar "blocos" ou grupamentos. O quadro deve estar o tempo todo ocupado por uma cena que, entretanto, não pode abafar a sensação de movimento que a troca de atores deve produzir. Os atores deverão também marcar um ritmo de cena, sendo os primeiros marinheiros mais alegres, entusiastas, tagarelas e arruaceiros, os últimos mais cansados, com movimentos pesados; começam a aparecer atores deitados, recostados, resmungões, pensativos. Tudo isso deve ser feito de forma gradual, com a intenção de produzir a sensação de uma viagem que aos poucos se torna custosa, dificultada pelos ventos e mares. Com essa progressão, devem também serem alterados a iluminação (que diminui ao ponto de crepúsculo), a intensidade dos ventos (que deve aumentar e tornar-se mais uivante) e as marés (que tornam-se mais revoltosas). Situação de inversão dos elementos: a dança e entusiasmo que tomavam conta dos marinheiros, agora passa para os elementos externos (vento, mar, luz), ao passo que a calmaria de lentidão desses mesmos elementos no começo da cena passam, agora, a habitar os atores no convés.]